29.6.05

A Caravana passa...

...e leva-me, até dia 7 de Julho, por terras de santos: Loyola e Xavier!

Até lá, deixo algumas palavras que aprendi dos seus exemplos.

Indiferença

Para te amar preciso de estar longe,
olhar-te da distância, sem pressa de te abraçar.

Aqui, do longe,
vejo melhor o desenho dos teus gestos,
saboreio melhor o azul dos teus olhos e o sal das tuas lágrimas.

Nada do que és me pertence.
És da terra e do sonho,
és do vento que te embala
e do fogo que te arde.

Amar…
… é deixar-te partir.

Janeiro de 2004


nota: Julho e Agosto serão meses de muitas voltas... quase sempre sem tempo para passar por aqui!

26.6.05

Fracassar…

Experimentar o fracasso, o falhanço total sem hipótese de uma palmadinha nas costas e de alguém que nos diz : “Não foi assim tão mau!”, é uma experiência dura, de alguma forma, é uma experiência de morte.
Mas estas experiências acontecem e antes de apreendermos com elas temos que olhar para os cacos que ficam à nossa volta e dizer, sem medo, a nós mesmos: “Falhei, não fui capaz”.
Só assim, podemos abrirmo-nos e entregar a Deus os nossos cacos. Só assim, a Sua força poderá trabalhar na nossa fraqueza. Só assim, passamos da morte à paixão de quem se entrega e da paixão à Ressurreição.

Obrigado, José

Desejo ser malandro, assim...

21.6.05

Tridimensionalidade Europeia

Europa era uma jovem e bonita fenicia, filha de Ajenor (Rei de Tiro e de Fenecio e descendente de Neptuno e Teléfasa) que em tempos foi raptada por Zeus, tendo-se transformado num grande touro branco e conduzida a Creta, onde se converteu em Rainha e Mãe da Dinastia de Minos. Muitos séculos volvidos desde a itologia grega, a Europa é hoje um touro cinzento, cansado sem rumo e sem trono abraçando uma crise sem precedentes e uma indefinição sem limites.
Muitos perguntam Europa que futuro? Muitos relembram com um suspiro de saudade...Ai Europa que passado! Muito se fala na Europa que presente.
Futuro, passado e presente, dimensões fundamentais para se perceber a plenitude de um problema. Dimensões que nos dão a altura (futuro), a largura (presente) e a profundidade (passado) de uma construção sui generis sem precedente na historia das organizações internacionais. O que dizer de cada ponto de vista? Como olhar para uma Europa que carrega estes tres pesos? Que dizer da Europa do passado, Europa do presente e Europa do futuro?

1) A Europa do Passado: A história da integração europeia é marcada por uma ideia-chave: "o metodo funcional, funcionalista", ou "dos pequenos passos". O conceito desta ideia-chave é muito simples: a Europa fez-se de pequenos passos, avanços progressivos, uma integração sectorial, um gradualismo consciencializado (exemplos: o Plano Schuman que visava uma união sectorial ao colocar em conjunto a produção franco-alemã, o Tratado de Roma que aprofundou a união economica, o Tratado de Maastricht pilar fundamental na unificação monetária, o Tratado de Nice que redifiniu a estrutura e alargamento da Europa). A Europa não se fez nunca de avanços demasiados irrealistas, inconcretos, desproporcionados (veja-se vários exemplos de projectos que foram "chumbados": a criação em 1952 de uma Comunidade Europeia de Defesa que incluia uma forte tendencia politica e de defesa europeia, a rejeição da União Politica Europeia projecto claramente federalista, em 1960). É pois uma Europa que tem no seu passado uma grande capacidade de avançar quando deve e recuar quando é preciso. Uma Europa que soube perceber o que era saudavel para um progresso equilibrado e aquilo que era precocidade desproporcionada, em suma uma Europa que soube ter a humildade e a capacidade para reconhecer o que era passos correctos e passos demasiadamente antecipados. Esta é talvez uma caracteristica historica que não se pode deixar fugir: a flexibilidade de edificação da Europa, a capacidade de destruir e voltar a construir, a simplicidade de encarar o futuro como uma soma de correcção de erros.

2) A Europa do Presente: é uma Europa mergulhada na crise da rejeição do Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa. Que dizer deste projecto?
1º forma de realização: Jean Monet um dia disse "A Europa não se fará sem o povo europeu e muito menos contra". A forma de realização foi completamente distante dos europeus. Um projecto conduzido por uma Convenção claramente de tendencia federalista e com um despotismo monárquico.
o nome do Tratado: chamar "Projecto de Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa" é enganador, é desonesto e é promíscuo. É uma fuga á verdade do conceito. É um jogo de palavras que procura esconder aquilo que verdadeiramente está em jogo: a criação de um texto supra-nacional de valor constitucional e imperativo. Chamar projecto de Tratado que estabelece uma constituição é o mesmo que falar em projecto de Lei que cria uma Constituição. Como pode haver uma norma de valor inferior que cria algo de valor superior? É a inversão mais descarada que já vi da hierarquia de fontes de direito.
simplificação juridica: simplicidade é palavra que não existe no vocabulário da União. Percorrer a organica e procedimentos europeus é entrar num quebra-cabeças cuja saída é um embroglio. Actualmente a União funciona com 4 Tratados base: Tratado de Roma, Tratado de Maastricht, Tratado de Amesterdão e Tratado de Nice. Cada um com a sua sistemática, com os seus articulados e com as suas revogações. O projecto , de forma muito positiva procura sistematizar 4 Tratados num só texto. Para mim jurista este é um esforço bastante louvavel e que facilita em muito o trabalho de pesquisa legislativa e sistemática legal .
inclusão da Carta dos Direitos Fundamentais: é um documento citado pelos diversos orgãos da União e que serve de base já para resolução de litigios referentes a direitos de 1ª, 2ª e 3ª geração. É uma mera compilação de direitos e de cartas fundamentais...nada mais.
criação de um Presidente a eleger por dois anos e meio sediado em Bruxelas, um quase- presidente da Europa.

criação de um Ministro dos Negocios estrangeiros: não parece ser uma grande alteração quando anteriormente existe o "senhor PESC" (Politica externa e segurança comum) para cuidar da imagem da Europa no mundo e dos contactos inter-potencias.
alargamento de competencias exclusivas da União, e inclusão de uma clausula de flexibilidade (quando for necessário a União actua para assegurar a conformidade com a Constituição).
fim da rotação igualitária na Comissão Europeia. Esta era composta até ao projecto de um (ou dois em certas situações) comissários escolhidos pelo Governo de cada Estado, sendo que cada um estava incumbido de uma pasta quase-governativa/executiva. No projecto reduz-se o numero de membros em relação ao numero de Estados o que vai particularmente contra a função deste orgão: a representação igualitária de cada Estado-membro.
É pois dúbia a formação deste Tratado. Parece ser um investimento demasiado arriscado querer mudar num só texto várias areas: sistematização juridica, criação de novos orgãos, redefinição de poderes, novas regras de decisão. São várias mudanças numa só. A Europa devia mais uma vez recorrer á regra histórica dos "pequenos passos" e transformar-se lentamente iniciando a sistematização juridica e terminando progressivamente na unificação politica (organica e funcional).

3) A Europa do Futuro: que dizer da Europa do Futuro? É inegável que culminará numa unificação politica. Foi esse o projecto que sempre se definiu e sempre esteve implicito nos passos economicos e sociais que se foram dando. Mas tem que ser á semelhança da sua construção, uma unificação "suis generis" diferente de todos os generos e feitios definidos de organizações e entidades internacionais. Algo que fale a uma só voz mas promovendo a intervenção de todos, algo que tenha uma só força mas muitas forças distintas e complementares, algo que tenha um só povo, mas percebendo a pluralidade humana e cultural, algo mais longe da burocracidade e mais perto das necessidades do europeu, algo projectado para o global mas atento no real, algo apontando para o céu mas com os pés na terra. Procura-se uma Europa de todos. Procura-se uma Europa dos povos. Que maior lição para a democracia (que anda evelhecida) do que conseguer conciliar na direcção de uma entidade vontades e culturas diferentes. Que maior sinal de liberdade e de compromisso ver juntas a uma mesa sensibilidades e intenções diferentes. O mundo igualiza as coisas. A Europa procurar igualizar na diversidade. O poder mostra-se no encontro de sensibilidades e não na sectorização daqueles que mandam. Será assim que se fará a Europa?

Bernardo Cunha Ferreira- europeu e português

Nota: a 3 dias de fazer o exame de Direito Comunitário não resisti a esta reflexão...perdoem-me pela extensão...



17.6.05

Bons políticos, más pessoas??

A história deve ter aí uns nove anos. Nessa altura estava ligado a uma “jota” e conversava com um dirigente partidário.
Disse-lhe: - Sabes, sinto que a política está a fazer de mim pior pessoa.
Respondeu-me, prontamente: - Não te preocupes, se estás a ficar pior pessoa é porque estás a ficar melhor político!

Hoje, esta história ainda me inquieta.
Entrei na política por gosto e com a certeza de o fazer um nome do meu empenhamento cristão, com vontade de lutar pela justiça a partir de dentro.
Não foi fácil e em grande parte não fui capaz de cumprir a missão a que me sentia chamado.
Julgo que o principal problema das estruturas partidárias (em especial das “jotas”) é a tendência para viverem centradas em disputas artificiais de poder. Estas disputas são artificiais na medida em que o seu sentido se esgota na própria organização e nas relações de proximidade e distância que aí se vão desenvolvendo e refazendo.
Esta visão pode parecer ligeiramente redutora. Contudo, facilmente se compreende que aquilo que sustenta grande parte das disputas eleitorais nos partidos, não são projectos, mas conflitos. O problema não está, naturalmente, no conflito. Os conflitos e as tensões podem ser criativos. O problema está no carácter pessoal desses conflitos.
O facto das discussões estarem ligadas a estes conflitos de carácter mais ou menos pessoal, dá-lhes uma grande carga emotiva. Estou convencido que esta carga emotiva e o envolvimento afectivo que ela acarreta são um factor importante na perda da liberdade dos militantes e dirigentes partidários. Esta perda de liberdade inviabiliza um distanciamento crítico perante os acontecimentos. Sem este distanciamento, torna-se impossível a tomada de consciência do desvio da política do seu verdadeiro sentido: o bem comum.
Pessoalmente fiz a experiência desta perda de liberdade. Dei por mim a ceder pensando que havia um horizonte para lá dos conflitos. Demasiadas vezes, não havia.

Tenho encontrado algumas pessoas preocupadas com o distanciamento entre a juventude e a política. Tenho encontrado pessoas com vontade de dar um contributo maduro e comprometido para que haja pequenas mudanças. Confio. Espero.

13.6.05

Confiar

Apesar dos olhares desconfiados que às vezes trocamos, apesar dos medos e das inseguranças, apesar de todos os sustos e de todas as hesitações, não é possível viver sem confiar.
Todos os dias confiamos que o pão que o padeiro preparou não nos vai fazer mal que, mesmo tendo havido muitos atropelamentos, o verde do peão nos permite avançar.
Por muitos “arrastões” que possam acontecer não podemos ficar fechados em casa.
Julgo que a salvaguarda do bem comum passa, necessariamente, pela preservar a possibilidade da confiança. Confiança nos outros, nas instituições e, naturalmente, para os crentes, em Deus.
Viver desconfiado inviabiliza a possibilidade de uma vida verdadeiramente humana.
O racismo, os preconceitos e todas as formas que minam a capacidade de confiarmos uns nos outros, são verdadeiramente desumanas.
O modo de responder a fenómenos tão brutalmente violentos e instigadores da desconfiança como o terrorismo, não pode ser o de deixarmos acordar o preconceito e o medo, mas o de procurar ir construíndo relações de confiança cada vez mais profundas.
Não se trata de olhar ingenuamente para o terrorismo e muito menos de desculpabilizar quem o promove. Trata-se de referir que um dos objectivos do terrorismo é destruir a possibilidade da confiança. Neste sentido, a melhor forma de o prevenir é aprofundarmos a capacidade de confiarmos uns nos outros.
Confiar é ser humano.

Da Lua tambem vem luz...

Em tempo de muito sol,muito suor, muito calor, muita festa, muita luz, muito barulho, muita ansiedade, muita acção, muito stress aqui vai uma proposta de viagem ao outro lado da grande estrela a que chamamos Sol:

"Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz: a luz do luar, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só o luar revela o lado feminino dos seres. Só a lua revela a intimidade da nossa morada terrestre.
Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra"

Mia Couto (In "Contos do Nascer da Terra")

10.6.05

A pedagogia de Deus

Confesso aqui que os meus dotes para a arte sempre foram muito fracos. O "três menos" ou o "suficiente menos" era sempre a minha nota classificativa em educação visual. Nunca soube desenhar uma pessoa e para mim uma pintura tinha sempre uma casa com uma porta, 2 janelas e uma chaminé.
Há uns meses atrás recebi o presente mais inesperado que podia receber...um bloco de folhas especialmente vocacionadas para ser pintadas ou desenhadas. Com esse sinal de "presença" desse meu amigo vinha um desafio, um limite, uma meta. Uma folha em branco que só por si já tinha um futuro pintado.
Como um "objecto estranho não-identificado", guardei o bloco sem saber que utilidade dar a algo que tinha sido sempre o meu "calcanhar de aquiles". Lá pintei o meu primeiro desenho mas algo muito basico e pouco feliz pelo que guardei o bloco e encadernei de vez as minhas capacidades artisticas.
Uns largos meses depois...um outro presente de outra pessoa...uma caixa de artista com aguarelas...mais uma surpresa e mais um desafio.
No dia de ontem sentei-me á mesa...e com um dom que só o meu pincel sabe pintei uma aguarela que me fez perceber a plenitude de um presente que começara numa simples folha de papel. Através do contacto com cores e com uma sensibilidade muito propria exprimentei uma noite de pintura pacifica, de presença de uma coloridade em que parte da minha personalidade encontrou a sua tela e o seu esplendor. Senti-me a pintar e a ser pintado...
Talvez a relação com Deus tenha semelhanças com esta historia desinteressante. Deus vai-nos dando "blocos" de coisas que não percebemos e achamos desadequado. Coisas que nos auto-condenamos de "três menos" ou de "suficientemente menos " e que vamos guardando tal como o bloco em prateleiras arrumadas. Depois Deus tira-nos o bloco e põe-nos a pintar. Dá-nos as cores e preenchemos as folhas em branco da nossa vida. Tudo dentro daquela "pedagogia" que só Deus tem, de um Pai que dá uma liberdade responsabilizante. Depois quando temos as cores nas mãos...o pincel vai ao sabor do vento...

E assim através de um pedaço de papel, Deus desperta-nos os sentidos, talentiza-nos e exponencia-nos o olhar...

9.6.05

Em tempo de exames...

... ou de excesso de trabalho, aqui fica uma sugestão para o modo de estar na oração.

Num momento como o dos exames é bom procurar que a oração seja um momento de descanso. Talvez não seja esta a altura para “grandes discussões com Deus”. Talvez seja melhor procurar estar com Ele, descontraidamente, saboreando as suas palavras, interiorizando-as sem ter a preocupação de “tirar conclusões.”

Bons exames, bom trabalho, boa oração...

6.6.05

Boas vindas!

Não posso deixar de dar as boas vindas ao Bernardo C. Ferreira.
A partir de hoje este blog tem uma voz diferente, um modo diferente de sentir o mundo.
Naturalmente que há muito que nos une... mas será sempre uma forma diferente de saborear a vida que resultará das suas palavras! Ao Bernardo só lhe pedi que tivesse Esperança, será pedir muito?
A Ana Melo também já está inscrita. E hoje, embora tardiamente, também lhe dou as boas vindas. Será óptimo quando chegar o dia em que ela tenha a posibilidade de escrever.
É bom não estar só...
Obrigado por terem vindo ter comigo!!

Ser Optimista ou daltónico?

Já dizia um famoso poeta ou escritor que “escrever é como dar cor a vida que por nós passa a preto e branco”, no fundo como se a maior parte das pessoas disfrutasse apenas de um pedaço da coloridade que a vida nos pode oferecer. Daí se explica este meu desejo em escrever que já vem de há muito muito tempo. Em tempos não muito longínquos sonhei em ser escritor, mas poucos eram os temas que podia falar. Comecei pelo mais fácil falar daquilo que gosto e que me apaixona- o futebol. Contudo rapidamente percebi que escrever sobre tal pouco contribuía para esta “nova visibilidade e coloridade” que é dada á vida. Em tempos tentei ainda fazer um livro de anotações diárias mas rapidamente o não-compromisso abriu-me as portas ao desleixo.
Agora, a convite do Zé Maria tenho esta oportunidade de dar cor aquilo que me passa pelos ouvidos, pelo olhar, pelo tacto, pelo olfacto...no fundo dar cor á vida que passa em mim e eu passo nela. Talvez seja este o grande segredo do optimismo...descobrir a cor da vida e não ficar relegado a uma "daltonisse" generalizada.

Um abraço para todos os "bloggers" e em especial ao meu mestre de blog Zé Maria

Parabéns Miguel!

Atrasados, mas a tempo de agradecer a um dos blogs que, ao lê-lo, espicaçou em mim a vontade de entrar neste mundo.
Até já!

Desiludir-se

Por vezes somos confrontados com a experiência da desilusão. Essa experiência é mais dolorosa quando resulta de uma atitude inesperada e, no nosso ponto de vista, negativa de uma pessoa por quem temos grande consideração, uma pessoa que sendo para nós um exemplo, parece por em causa a sua forma exemplar de viver…
Quando esta experiência é mais intensa parece que o mundo desaba à nossa volta, parece que morre em nós uma certa inocência, uma certa vontade de acreditar.
Temos, no entanto, que estar atentos aos idealismos que, às vezes nos conduzem à intransigência, temos que saber acolher os outros na sua fragilidade e debilidade, sabendo que essa fragilidade pode passar pelo erro. Temos que estar disponíveis a, quando for caso disso, ajudar o outro a reconhecer o seu erro e a ajudá-lo a fazer caminho a partir daí.
Também eu me desiludo a mim próprio… Também eu desiludo os outros e devo estar aberto a que eles se aproximem de mim para, voltando a confiar em mim, me ajudarem a fazer caminho…

Aqui estou...

... de regresso...
esperando não voltar sozinho!