21.2.06

"Vi o Senhor"

Actualmente, ao contrário do que tem sido tradição no nosso país, assistimos a uma diminuição da população que se afirma cristã. Ser católico já não é uma característica que possamos reconhecer na maioria das pessoas com quem nos relacionamos diariamente.
Contudo, temas como Igreja Papa e Vaticano, o planeamento familiar, dogmas, bíblia, entre outros, continuam a dar muito que falar. Já perdi a conta às horas de conversa geradas por estes assuntos no bar da minha faculdade, em saídas à noite ou em serões e viagens entre amigos. Parece estar na moda falar de Deus e ter uma posição relativa a quase tudo o que se passa na Igreja Ainda assim, a maioria das pessoas parece não querer comprometer-se com a Igreja.
Parece que a divulgação do cristianismo atinge as pessoas de uma forma desinteressante e repulsiva que não vai de encontro ao que as pessoas procuram.
Mas, e então? Parece que, como Igreja, deixamos de nos impor e por isso perdemos os nossos "adeptos"? Será que as pessoas já não são cativadas pela Igreja e por este ideal que é ser cristão?
Na minha opinião, esta liberdade para podermos falar de todos estes assuntos é saudável e ajuda a que sejamos mais verdadeiros na nossa fé. Contudo, estas conversas têm apenas um pequeno problema: nem sempre ajudam muito a cativar as pessoas que já não tenham muita vontade de ser cativadas.
Acho que hoje em dia as pessoas se emocionam e se deixam tocar mais se os católicos lhes conseguirem mostrar aquilo em que acreditam pela sua maneira de estar e de encarar a vida.
Se eu conseguir fazer uma coisa tão simples como ajudar alguém numa matéria que eu domino e se for capaz de o fazer sempre. Se as pessoas souberem que sou católica, talvez comecem a levar-me mais a sério, a mim e a tudo em que acredito.
Na minha opinião, para nos podermos afirmar como cristão temos que ter certo tipo de atitudes. Atitudes que sejam de alguma forma o reflexo das atitudes de Jesus. Tenho esta visão da fé porque reconheci esta atitude por detrás dos actos de pessoas que me tocaram profundamente e influenciaram todo o meu modo de encarar a religião. Neste momento, o meu esforço com cristã no mundo tem ido muito neste sentido... e até ver, esta é a minha maneira de gritar ao mundo: "Vi o Senhor!".

Madalena Mariz

P.S. Este escrito é ainda da série Xavier - e foi escrito a partir da experiência Blogs, Deus e o Futuro.

9.2.06

Munique


Na leitura que faço, Munique não é um filme sobre um atentado. É um filme que fala da inutilidade da vingança, do modo como a vingança corrói o nosso interior, e como acaba por nos mergulhar no medo que inviabiliza que vivamos humanamente.
Julgo que o modo como a rosto do protagonista se vai transfigurando é a expressão da inutilidade da violência e do modo como ela destrói a nossa alma.
É, de facto um filme perturbante.

8.2.06

Poema do Afinal

No mesmo instante em que eu, aqui e agora,
Limpo o suor e fujo ao sol ardente,
Outros, outros como eu, além e agora,
Estremecem de frio e em roupas se agasalham.

Enquanto o sol assoma, aqui, no horizonte,
E as aves cantam e as flores em cores se exaltam,
Além, no mesmo instante, o mesmo sol se esconde,
As aves emudecem e as flores cerram as pétalas.

Enquanto eu me levanto e aqui começo o dia,
outros, no mesmo instante, exactamente o acabam.
Eu trabalho, eles dormem; eu durmo, eles trabalham.
Sempre no mesmo instante.
(...)
Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.
Busco as constelações, balbucio os seus nomes.
Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.
São sempre as mesmas agora e sempre.

Mais além, mais além o céu é outro,
Outras são as estrelas, reunidas noutras constelações.

Eu nunca vi as deles
Eles,
Nunca viram as minhas.

A natureza separa-nos.
E as naturezas
A cor da pele, a altura, a envergadura,
As mãos, os pés, as bocas, os narizes,
A maneira de olhar, o modo de sorrir
Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.

Tudo.

Afinal
Que haverá de comum entre nós?

Um ponto no infinito.
Antero de Quental

6.2.06

A conhecer

Noutro dia tive a sorte de conseguir ver, ainda, numa sala de cinema, um filme do qual gostei muito, “O Fiel Jardineiro”.
O filme é a história de um casal que se conhece em circunstâncias um bocado platónicas, ou, também se pode dizer, “à filme” eheh. São acima de tudo pessoas com personalidades muito diferentes. Ele é um inglês típico, muito contido, correcto, faz jardinagem e é diplomata de profissão, ela é completamente impulsiva, a roçar a temeridade, mas também com um grande sentido de missão e inconformidade.
Ambos vão para África, onde ele vai trabalhar. Ela não fica parada e, além da dedicação à população, investiga a actividade das grandes empresas farmacêuticas presentes no país. Para proteger o marido não lhe conta a sua actividade como “detective” e ele perante tantos segredos começa a desconfiar que outras coisas se passam. Enfim, ela acaba por ser assassinada e ele fica destroçado.
A partir daqui a história é o marido a querer saber o que se passou ao certo e a percorrer o mesmo percurso de investigação da mulher, até ele próprio acabar também morto (mas, neste caso, sabendo à partida que era isso que lhe ia acontecer).
O enredo é um bocado complexo e confesso que houve alguns pormenores que me escaparam. De qualquer maneira, não foi o ponto de vista “policial” ou mesmo o escândalo das farmacêuticas e da realidade de alguns países africanos que mais me marcaram (claro que também fiquei sensível a isso).
O que achei impressionante neste filme foi a forma como evoluiu o carácter do marido até se tornar praticamente igual ao da mulher. A identificação completa entre as duas personalidades, mesmo depois da morte de uma, só possível através do conhecimento mais profundo que ele conseguiu ter dela com as investigações que foi fazendo. No fim, os dois eram um só.

O filme a mim falou-me de conhecimento.
O conhecimento é fundamental na relação entre duas pessoas. O conhecimento permite a aceitação (senão conhecemos não sabemos o que estamos a aceitar), a aceitação possibilita a partilha, a partilha o amor e com isto tudo temos a felicidade.

Neste caso a ênfase está no conhecimento racional, mas mesmo na atracção física, que lhes despoleta a relação, e que todos sentimos de vez em quando por alguém, existe um conhecimento, cujo sujeito não somos nós, mas algo maior que a nossa consciência, ou então, o saber de uma experiência anterior interiorizada, que é para mim a definição de intuição.

4.2.06

Tenho Tempo

Preciso
que o Tempo
tome o meu corpo
abra os meus braços
e me sente
quieto e calado
junto a ti.

Fevereiro de 06

Venham mais dois...

O meu Companheiro Nuno Branco criou recentemente um Blog. Chama-se "Toques de Deus".
É bom ter mais Companhia na blogosfera.
Obrigado pelo teu blog, Nuno.

alguém bastante amigo quis mostrar-me que se pode ser amigo olhando de formas totalmente distintas para o mundo. Eu já sabia, mas agradeço a lembraça.
Afinal, quem disse que um optimista e um pessimista não podem fazer uma dupla inseparável...

2.2.06

Padrões

É mais ou menos comum cruzarmo-nos com adolescentes que se vestem com roupa com padrão militar. Ora, sempre que isto me acontece não consigo deixar de me sentir incomodado. É claro que pode apenas tratar-se de uma questão de sensibilidade pessoal… seja!
Mas, não consigo deixar de pensar que, valorizar esteticamente um símbolo de violência, transformando-o num mero instrumento de moda, num «adorno», é algo de estranho. Dir-me-ão que aquela peça de roupa não passa de uma camisola, de um boné ou de um par de calças. Contudo, não sou capaz de deixar de pensar como, sem dar por isso, embarcamos numa certa normalização da violência.

Quando começaram a aparecer as primeiras calças “rasgadas”, “remendadas” ou “rotas” saídas directamente do pronto-a-vestir com um aspecto gasto, uma pessoa muito próxima disse-me: “Estão a gozar com os pobres!”.

Não gosto de exageros, mas às vezes parece-me que fazemos pequenos truques para esconder aquilo para que não gostamos de olhar e, sem darmos por ela, banalizamos aquilo que nos devia escandalizar, mascarando-o de moda…