29.2.08

Zacarías

Del beso de tus brasas arden mis labios
Tu fuego ha bebido todas mis palabras.
Un silencio herido grita mi ausencia y tú presencia.

Comunhão na Fé

Espanha, Madrid. Um grupo de adultos com dificuldade de sintonizar com a hierarquia da Igreja.
O padre do grupo faz uma chamada de atenção: “Não estamos chamados a uma comunhão de ideias ou teologías, estamos chamados à comunhão da Fé”. Pode parecer um modo simplista de aliviar tensões... não creio que seja isso. É chamar a atenção para o essencial. Quem nos une e faz de nós, pela entrega total da sua vida, um só corpo é muito mais forte do que tudo aquilo que nos possa separar, mesmo que às vezes as divergências resultem de justas indignações.
Como jesuíta tenho podido fazer esta experiência. É sobretudo na Eucaristia que tomo consciência desta realidade. Viver desse mistério de entrega não implica renunciar à nossa consciência, mas pode curar-nos (a todos) da tentação de erguermos uns contra os outros certezas absolutas
.

27.2.08

Deixem passar o dom...

Cada dom recebido está em nós de passagem. Não nos pertence. Querer guardá-lo ou prendê-lo é impedir o seu dinamismo. O Evangelho de ontem (Mt.18,21-35) falava-nos do perdão. Contava a história do devedor perdoado e incapaz de perdoar. Parado em nós, morre o dom...
Somos uma ponte por onde passa o dom de Deus para o outro.

26.2.08

Quaresma: abertura a Deus

No seguimento desta entrada, aqui ficam algumas sugestões muito simples que possam ajudar a uma vivência da Quaresma.

Aviso Importante:
Mais do que exercícios que levem a elaboração de uma lista carregada de propósitos, gostava que estas dicas ajudassem a uma atitude de abertura diante de Deus. A quaresma não é uma corrida para ver quem chega mais depressa até junto de Deus, não é um cartão que se vai enchendo de pontos à medida que se faz mais uma boa acção, é um tempo de abertura a Deus... se estes exercícios não ajudarem a isso e apenas gerarem ansiedade e frustração porque aumentam em nós a sensação de falhanço, o melhor é não lhes dar importância e encontrar outras formas de viver a abertura desejada.

Nota: perdoem-me o tratamento por tu, estes exercícios fazem parte de um texto mais desenvolvido em que esse tratamento fazia sentido...


Para inspirar o jejum
1. Antes de te deitares pega numa folha de rascunho e regista:
- Todo o tempo que desperdiçaste inutilmente diante da TV ou apaticamente diante do teu computador. Amanhã, procura usar esse tempo para, em silêncio, olhar o mar, ler um bom poema ou ouvir uma boa música. E no final, não te esqueças de agradecer a Deus o descanso.
- O número de folhas que deitaste fora sem quase estarem usadas. Amanhã antes de amarrotar uma dessas folhas, usa a parte limpa da folha para escreveres um pequeno “recado” àquela pessoa com quem te cruzas todos os dias e que tem andado com um olhar triste.
2. Marca uma reunião de família e propõe um jogo: “Caça aos excessos” – a Regra é que, dentro de um tempo limite, cada membro da família percorra a casa e vá registando todas as coisas inúteis ou excessivas que se têm comprado. Depois façam um resumo de tudo e procurem fazer um “Plano de consumo familiar” em que tenham como critério comprar apenas aquilo que é realmente necessário.

Para inspirar a oração
1. Escolhe um tempo do dia para estares a sós com Deus. Deixa que Ele te ama e te toque na tua fragilidade. Pede-lhe que Te ajude a dar sentido àquela dor que se transformou em ressentimento.
2. Compre o jornal ou aproveita um daqueles que distribuem gratuitamente no Metro. Escolhe um local sossegado. Faz dessa leitura um tempo de Oração. Procura os sinais de Esperança que Deus acende no mundo através dos homens. Deixa-te inquietar pelas situações em que Deus grita escondido. Haverá alguma dessas situações perto de ti? Que podes fazer?
3. Lê uma das passagens dos Evangelhos que relata a passagem de Jesus pelo deserto e as tentações porque aí passou. Já reparaste que os critérios que Jesus escolhe baralham um pouco as nossas contas. Será que estás a conseguir a viver a pobreza, o serviço e a humildade que Ele nos propõem?

Para inspirar a esmola
1. Procuro visitar alguém que esteja a passar por uma experiência de solidão. Disponho-me a escutar e a acompanhar.
2. Se vou dar dinheiro a alguma instituição procuro fazê-lo da forma menos impessoal possível. Tento que seja uma instituição na qual me possa implicar, à qual me possa dar.
3. Procuro viver as minhas relações de forma mais verdadeira ajudando e deixando-me ajudar.

(act) se alguém se atrever a fazer algum destes exercícios, faça o favor de partilhar a experiência nos comentários

24.2.08

Criatura

Recebo-me a mim mesmo em cada dia,
Recusar-me é o meu maior pecado.

Só abrindo-me a mim, me inunda a fonte
Que suga os fantasmas que me atormentam,
Que cala os medos que em mim choram,

...embala os gritos e adormece as feridas.

Só abrindo-me a mim, me inunda a fonte
E se acende o fogo,

Que m' atira para fora de mim...

22.2.08

“Dentro do túnel é proibido fazer inversão de marcha” (Margaret Silf)


A frase que serve de título a esta entrada, tem como pano de fundo o princípio de Santo Inácio segundo o qual em tempo de desolação não se devem fazer mudanças. Em tempo de desolação não se devem alterar decisões.
Todos passamos por momentos de escuridão. As razões podem ser tantas: dores partilhadas, solidões desesperadas, uma insuperável incapacidade de lidar com os nossos limites.
Nesses momentos, a angústia que nos agarra apaga em nós a lucidez e o discernimento, apaga a capacidade de tomarmos conta da nossa vida. Nesses momentos, frases com esta podem funcionar como a pequena luz que nos permite respirar. Frases como esta podem funcionar como um renovado e paciente convite a confiar...

21.2.08

Para animar bons políticos, com falta de inspiração

Um Blog de Homenagem a Francisco Lucas Pires, com textos recolhidos pelos seus filhos.
Vale a pena lá ir.
Aqui fica o excerto de um desses textos que data de 1997.
Os sublinhados são meus.

Para lá da (meia) verdade políticamente correcta

“A globalização e o carácter tentacular deste novo processo de informação tornaram o cidadão, primeiro num receptor, “um cliente” no sentido romano, mas depois, com a Internet, num emissor autónomo que dialoga directamente com o espaço público e os centros de poder, sem necessidade de outras mediações.
A situação melhorou, pois, mas, ao mesmo tempo, tornou-se ambígua pois esta nova oportunidade de relacionamento pelas auto-estradas da informação traz consigo um risco de intoxicação informativa e de “saber opcional” (Jean de Munck) ou de cultura “à la carte”, fracturando a visão de conjunto e a possibilidade de direcção coerente que a política cidadã implica. A perda de visão de conjunto e de relação directa com os outros pode ser uma dupla perda moral ao cortar o nexo que fundava o “um por todos e o todos por um”.
(...)
Neste contexto não é por acaso que tais poderes em ascensão – os juízes, os media e a burocracia – são basicamente poderes de controlo e interpretação, de mediação ou última instância. Numa segunda fase, porém, os políticos tendem a descarregar neles também os poderes e a responsabilidade de decisão, que se lhes tornaram insuportáveis, até porque é do lado dos novos contra-poderes que parece emergir uma espécie forte de legitimação. Assim se vai operando uma sibilina e também enganadora transferência de poder para instituições que não são supostas exprimir a verdade política originária mas a podem, afinal, paralisar e irresponsabilizar, deixando-a, nomeadamente, inerme perante a avalanche do mercado “sem fronteiras”.

Três palavras sobre a Quaresma

Jejum: uma questão de justiça ecológica e social
O jejum procura ajudar-nos a despojarmo-nos do supérfluo, de todo o que enche o nosso coração e a nossa cabeça de ruídos que nos impedem de ouvir os toques de Deus. É reaprender a usar os bens na justa medida em que nos ajudam a aproximarmo-nos de Deus e dos outros. Num ambiente em que, por vezes, se vive no excesso, é bom procurar acertar com o essencial. É bom tomar consciência da injusta distribuição dos bens e procurar caminhos concretos que invertam esta lógica.


Esmola: olhar o outro olhos nos olhos
Um dos problemas da esmola é que, sem querer, ela pode a levar-nos a olhar o outro de cima para baixo. Mas se eu reconhecer a vida como dom e que os talentos e os bens que tenho não são um direito, posso procurar viver a esmola como um gesto pelo qual procuro tornar o mundo mais justo e pela qual dou ao outro aquilo de que precisa para ser quem é. Desta forma, posso também dispor-me a receber do outro aquilo de que preciso para ser quem sou. A esmola pode ser um caminho em que aprendemos a verdadeira reciporcidade, olhos nos olhos, um caminho de purificação dos nossos olhares altivos.


Oração: experiência de ser amado
A oração é uma experiência de intimidade. Uma experiência de intimidade que nos aproxima de Jesus, uma experiência em que o mais importante é deixarmo-nos amar por Deus. É esse o Amor que cura as nossas feridas e que nos aponta o caminho que somos chamados a seguir. Essa experiência é feita a partir de um conhecimento cada vez mais profundo de Jesus, das suas opções, da sua vida. É Ele que nos revela o Amor
É também a experiência em que Deus deixa em nós a certeza de que, aconteça o que acontecer, Ele nunca nos deixará só a procurar saída para as encruzilhadas da vida. Na oração aprendemos o Amor e a Esperança.


nota: entretanto, no regador discute-se a esmola: aqui, aqui e aqui.




19.2.08

Tentação do Gueto na Igreja

Já depois de ter escrito a entrada anterior, encontrei este texto que não resisto a transcrever quase na íntegra:

"Más que una necesidad [o gueto] hay veces que se vuelve tentación para la Iglesia que vive en una sociedad plural. Vivir en el ágora es reto apasionante, aún con riesgos. Vivir en el ghetto se vuelve placentero, aunque frustrante al fin. Hay ghettos por doquier y también en la Iglesia que gusta del refugio cuando se siente amenazada. El ghetto se vive como la respuesta a una amenaza y se convierte en amenaza propia. (...) La Iglesia ha tenido que vivir condenada en ghettos a lo largo de su historia pero no ha hecho paradigma de ellos. Por su propia naturaleza es universal y no le encajan los ghettos. Cuando se crece en una Iglesia así, el ataque y la ignorancia de lo que no es propio del grupo se vuelve norma excluyente creando monstruos que devoran la comunión eclesial. Es una de las tentaciones más frecuentes en esta Iglesia que peregrina por el desierto de la libertad y que alguna vez añora el ghetto de Egipto bajo el látigo de Faraón"

(Juan Rubio-Director de Vida Nueva)

Nota: na mesma revista também vale mesmo a pena ler uma entrevista com Adela Cortina: brilhante!

18.2.08

Conflito ou encontro?

Independentemente de uma visão religiosa ou de uma perspectiva excessivamente catastrofista há, ao olhar para o mundo de hoje, algumas coincidências nas análises que se fazem.

Fala-se de individualismo e fragmentação da vida, de solidão e angústia.
Indo um pouco mais longe, é possível encontrar denúncias sobre a ausência de horizontes de sentido. Aprofundando ainda mais, fala-se da falta de raízes associada ao enfraquecimento de grupos ou comunidades que possibilitem experiências de pertença.
Mais do que sublinhar a negatividade destas palavras, gostava só de dizer que, com roupagens distintas se pode encontrar este tipo de reflexão em áreas que vão da sociologia à antropologia, passando pela filosofia.

Na linguagem da Igreja, este discurso aparece associado a palavras como laicização ou crise de valores espirituais. A Igreja, participando no espaço público, pode e deve situar-se diante do mundo, das suas esperanças e das suas crises. A Igreja tem uma palavra a dizer.

Como Igreja, uma das grandes tentações com que hoje nos defrontamos é a de entrar numa atitude de confronto com o mundo. Por vezes, esta confrontação serve-se de um discurso sobre os valores ameaçados e reenvindica a necessidade da profecia. Não duvido que a profecia seja necessária e que que há valores a que temos que ser fíeis. Contudo, estando a viver em Espanha, não posso deixar de referir como um discurso de confrontação com a sociedade pode ser tão desgastante para a Igreja, como pode gerar desânimo e divisão no interior da própria Igreja. E como, sobretudo, pode deixar sozinhas pessoas que precisam de ouvir a Palavra que nos foi confiada.

Diante das feridas do mundo, Jesus aproximou-se e proporcionou momentos de encontro. Em muitos momentos da Bíblia o reconhecimento do pecado segue-se a uma experiência do Amor de Deus.Diante das feridas do nosso mundo, penso que não vale a pena gritar, ou inventar discursos que ao querer denunciar, acabam por condenar. O mais urgente é que tenhamos a capacidade de proporcionar momentos de encontro em que Deus se possa comunicar directamente com aqueles que ama.

17.2.08

Frio

I
O sol ferido,
Enche de luz a sala vazia e branca.
Lá fora, deitado na pedra,
Lavo o meu olhar,
Nos ramos despidos de uma árvore.

Preciso da tua ausência.
Poda-me as palavras.
Faz descansar o silêncio,
Nos meus lábios.

II
O frio amargo das lágrimas,
Mergulhava por dentro do meu corpo.
Esquecia-me do bem recebido,
Esperando que me fosse devido.

16.2.08

Não há indiferemça sem distancia

A indiferença, como liberdade interior, é mais do que uma capacidade de dizer tanto me faz isto ou aquilo, desde que se cumpra a vontade de Deus.
A indiferença gera-se numa renovada dinâmica de distanciação. Esta dinâmica não deve ser etendidada como rejeição ou separação da realidade criada. A distância faz nascer o espaço de que cada criatura precisa, para que reconheçamos no seu rosto a luz que lhe está prometida.
Apenas esta luz, revelada na distância, pode curar toda a tentação de objectivar o que não nos pertence.

Quase

Nunca estive tão perto de fechar esta loja um «pouco» abandonada...
Como, neste negócio, não há risco de perder o investimento, volto a tentar... sem tentações de audiências. (espero) !!
Regresso já a seguir...