8.4.08

Uma boa conversa...

Tantas amizades se perdem porque, na hora de conversar, de procurar caminhos de reconciliação, nos precipitamos e deixamos que a mágoa faça ferida.

Estas linhas querem apenas ser uma ajuda para quem precisar de preparar-se para uma conversa de reconciliação. Não são passes de magia. A vida não tem livro de instruções, não se resolve com receitas simplistas. O meu único desejo é inspirar uma atitude de abertura que, passo a passo, possa levar ao (re)encontro do outro.

Trazer à memória e agradecer o primeiro encontro, o entusiasmo das primeiras horas e dos primeiros dias. Rever o filme da nossa história da amizade, os momentos mais importantes, todo o bem recebido. Escrever. Recordar algum gesto escondido que tenha ficado por agradecer. Anotar e sublinhar.
Não ter vergonha de saborear tudo o que se deu. A alegria e o amor com que se deu.

Reconhecer também todos os gestos em que possamos ter ferido o nosso amigo. Pedir Perdão em voz baixa.
Olhar, sem medo, para aquilo que nos magoou. Que gestos, que palavras. Pedir a Deus que a dor não se transforme em ressentimento.

E depois de tudo isto...

... partir para a conversa com a certeza que o amigo de quem me aproximo parte para o encontro com a melhor das intenções.

Ao conversar ser transparente e humilde. Ser verdadeiro, sem querer ser dono da verdade. Liberto da pretensão de converter.
Agradecer. Pedir perdão. Dizer o que dói. Dispor-se a perdoar.
Em cada palavra, procurar a humildade de quem se expõem ao outro, sem transformar a conversa numa troca de argumentos, num debate em que se procura ter razão.
nota: este texto é agradecidamente dedicado ao meu companheiro jesuíta RR: bom conversador e inspirador de conversas.

4.4.08

Bondade

Como expliquei um dia por aqui, não gosto da palavra herói.
Mas hoje, pude ouvir um homem que foi durante a minha juventude e adolescência algo parecido com um herói. Hoje pude apreciar a transparência, verdade e profundidade da sua heroicidade. Pude escutar a sua bondade.
Um homem de Deus, um homem para os homens e mulheres do povo que acompanhou.
Nas suas palavras, despojadas de todo o artifício, ecoava uma esperança sem ressentimento.
Falando num português pausado para uma audiência maioritariamente espanhola, D. Ximenes-Belo marcou pela sua simplicidade, pela autenticidade do seu testemunho pessoal.
Hoje, ao regressar a casa, voltava profundamente emocionado e muito mais consciente da história de sofrimento do povo timorense e da nossa responsabilidade como país nessa mesma história.

3.4.08

Grito

Quando um amigo é acusado injustamente, um grito revoltado e contido nos abala e faz tremer. Quando essa acusação se dirige como seta envenenada à mais profunda das suas intenções, ao lugar mais secreto e puro do seu coração não podemos deixar de abrir as mãos e levantar os braços como se fossem lágrimas.
Conhecer o coração que se esconde por de trás de cada gesto, enche de uma luz clara e transparente a mais enigmática das acções.


Às vezes, sem querer, deixámos que passem de boca em boca através de conversas, longas ou de circunstancia, críticas a pessoas que não conhecemos. Pessoas das quais desconhecemos o coração.
Era bom acreditar que um gesto, que a nós nos parece estranho e ambíguo, pode esconder uma bondade insuspeita.
O mundo está cheio de matizes e os nossos olhos são demasiado pequenos para alcançar ou acolher toda a diferença e toda a bondade.

Precisamos de ser humildes e aceitar que o nosso olhar é incapaz de penetrar toda a densidade do agir humano, é incapaz de julgar plenamente e com justiça todas as intenções.

nota: o nº 2 do essejota.net está on line. boa leitura!